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22/10/2018 09:46h - Atualizado em 22/10/2018 09:48h

Carta ao meu Pastor

Por Roberto Junqueira Maia

Prezado Pastor, muito obrigado pela resposta e pela consideração que ela expressa à minha pessoa, especialmente vinda de um homem como o senhor, por quem tenho um profundo respeito, admiração e gratidão – nunca me esquecerei do modo como me acolheu e orientou na primeira vez que o procurei, há oito anos. Ademais, é difícil, nos dias que correm, conseguir conversar racionalmente sobre isso.


É com sincero respeito que divirjo da posição assumida pela Assembleia de Deus Madureira, de apoio a Bolsonaro. 


Compreendo que, historicamente, os evangélicos, como boa parte dos católicos, têm aversão à esquerda, mas penso que nesta eleição o País chegou a um impasse que vai além do rótulo partidário – até porque, na prática, o Partido dos Trabalhadores, nos 13 anos que governou o País, mostrou-se muito mais de centro que de esquerda propriamente, e bem longe se assumir posições radicais; e, em verdade, todos os partidos políticos, incluído o PSL de Bolsonaro, tiveram parte na corrupção que, sabemos nós os mais velhos, vem de muito tempo, tendo como único diferencial o fato de que, agora, a Polícia Federal, o Ministério Público e a própria Magistratura desfrutam de recursos materiais e humanos e de uma liberdade de ação que nunca tiveram.
Divirjo não só como cidadão, mas também, e sobretudo, como cristão. Propostas de governo são palavras, que podem ou não se concretizar – mas a pessoa que as apresenta, esta sim é concreta e tem uma história que não se pode ignorar. E Bolsonaro, por mais que nessa reta final se esforce em apresentar um novo rosto, encarna, em espírito e verdade, tudo o que o Evangelho condena. 


Não é possível nem razoável esperar perfeição de alguém – mas, como diz aquela campanha televisiva, “tudo começa pelo respeito”. E Bolsonaro demonstrou à saciedade, em mais de duas décadas de atuação política, que não respeita a alteridade. Pior que isso: seu discurso é clara e inequivocamente um discurso de ódio, não sendo à-toa que neste momento o mundo inteiro esteja deplorando que o Brasil se encontre na iminência de elegê-lo à Presidência da República.


Começa pela mentira, cujo pai sabemos bem que é. São dezenas e dezenas de “fake news” espalhadas propositalmente em detrimento da imagem e da honra de seus adversários, e na grande maioria das vezes usando do anonimato, o que é o suprassumo da deslealdade.


Bolsonaro nunca escondeu seu desrespeito às mulheres, aos negros, aos indígenas, aos homossexuais – tudo, pelo simples fato de o serem. Ao contrário, ele sempre fez desse desrespeito a sua plataforma política, a ponto de ser hoje réu em duas ações penais que tramitam no Supremo Tribunal Federal por crime de incitação ao estupro.
Votou repetidamente, como ele mesmo fez questão de anunciar e frisar, contra os direitos trabalhistas das domésticas, as quais, no Brasil, mormente nas regiões mais interioranas, beiravam a condição de escravas.


Faz apologia da violência policial, dizendo e repetindo que “policial que não mata não é policial”. Defende, aberta e indiscriminadamente, a tortura. Promete armar “todos os cidadãos de bem” – e ensina crianças a fazerem o gesto que representa essa política, gesto este que tive o imenso desprazer de ver reproduzido dentro de igrejas, tal qual os alemães saudavam a Hitler.


Recebeu, como a imensa maioria de seus colegas parlamentares, R$ 200 mil da Friboi – e usou de um subterfúgio para lavar esse dinheiro, “devolvendo-o” ao partido e recebendo do partido a mesma quantia, exatamente. Também se refugia na diferença entre legal e moral para justificar seu “auxílio-moradia”, apesar do discurso moralista que não comporta tal distinção.


Mesmo na vida pessoal, Bolsonaro não exibe as credenciais que a Palavra exige de um pastor: está no terceiro casamento, foi acusado (com documentos) pela segunda ex-esposa de ameaça-la de morte e de mentir sobre o patrimônio pessoal; e conforme uma reportagem publicada tempos atrás, chegou a propor o aborto de um de seus filhos. 
Todos sabemos tudo isso – e não vejo como conciliar tudo isso com uma fé cristã e uma consciência democrata.


Antes mesmo de tomarem posse, radicais da extrema direita, obviamente encorajados pelo discurso e exemplo que vem de cima, estão ameaçando, agredindo e matando pessoas pelo simples fato de tais vítimas não corresponderem ao seu “ideal de supremacia”. Não tem como fechar os olhos e os ouvidos a declarações como a do líder da KKK, que sobre Bolsonaro disse: “Ele soa como nós”. 


Não vejo justiça em se condenar o Haddad por fatos de outrem e aqui repito: todos os partidos, inclusive o de Bolsonaro, cometeram ilícitos. Não votei em Haddad no primeiro turno, mas é mister reconhecer que ele que é casado há 30 anos com a mulher da sua juventude, tem filhos que não fazem do desrespeito ao outro a sua plataforma política, vive modestamente e foi o ministro da Educação cuja política permitiu que pobres chegassem à faculdade e se formassem médicos.


O ladrão a gente fiscaliza e, se preciso, processa, condena e prende. Já o ditador, este é quem prende e faz desaparecer. Sinceramente, prefiro o primeiro. 


Se, por uma questão cultural, os evangélicos não concebem votar num candidato de centro-esquerda ou mesmo de esquerda, ainda que para evitar que alguém com as credenciais de Bolsonaro assuma o posto político mais elevado do País, penso que muito mais coerente seria expressar o seu desagrado pelo voto em branco ou nulo.
Em sua história recente, o Brasil igualmente viu multidões de católicos saírem às ruas na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” – e isto custou muito caro à Nação. Os evangélicos assumiram, agora, a posição definidora desta eleição – e estão mesmo dispostos a ser identificados, perante a História, como cúmplices do discurso e do que vier a se concretizar da ideologia bolsonariana?


“Porque me chamam Senhor, Senhor, e não fazem o que eu digo?”


Não posso confessar com os lábios o que a minha atitude nega.
Respeitosamente.,
 

Text publicado em 17.10.2018 na página do face do autor.